Uma breve história do RPG – Parte 2

Continuando a breve história dos “tabletops RPGs” (termo que o pessoal usa para distinguir o RPG tradicional, jogado em mesas, dos  Live-Actions (que são jogados com os jogadores atuando e impersonando todas as ações do personagem, uma versão bem mais teatral) e até mesmo para diferenciar dos RPGs de video-game, que não tem nada de RP.

O foco agora é o RPG no Brasil. Como começou, os rumos e até mesmo o futuro do hobby. Vai ficar claro para o leitor que os acontecimentos listados lá fora repercutem por aqui, tanto positiva quanto negativamente.Vocês devem se lembrar que o RPG estava em seu auge nos anos 80. Lá fora, vários títulos de peso foram lançados, jogos que logo se tornariam cults, sempre com o AD&D como referência. AD&D, vale lembrar, corresponde à segunda edição do Dungeons and Dragons. O “A” vem de “Advanced”, mas essa nomenclatura foi abandonada no meio dos anos 90, quando, no meio da crise, os donos viram que o termo “avançado” fazia o jogo parecer complicado e desencorajava novos jogadores.

De volta aos anos perdidos, ainda na década de 80 começaram a aparecer os primeiros jogadores de RPG no Brasil: pessoas que iam para os EUA e tinham contato com o jogo através de amigos ou parentes que viviam por lá e voltavam com algum livro. Como era dificil todos do grupo terem acesso a esses livros, era hábito os jogadores fazerem fotocópia de pedaços do livro, ou mesmo dele inteiro, para que todos pudessem ler e usar. Por causa disso, os primeiros jogadores ficaram com o nome de “geração xerox”.

Alguns desses jogadores, no final da década de 80, se reuniu para formar uma livraria, a Devir, que seria um espaço para importar quadrinhos, livros de ficção e fantasia e, logo, de RPG. O passo seguinte foi comprar os direitos de tradução e publicação de material. E assim, o RPG no Brasil conseguiu atingir quem não falava inglês e até um público mais jovem.

O escolhido foi o Gurps (lembra-se dele?). Em 1991 saiu no Brasil a primeira edição do Gurps em português, que correspondia à terceira edição americana. No mesmo ano, o primeiro RPG brasileiro: Tagmar. Bebendo da fonte da fantásia medieval do AD&D, tinha mais fama por ser o primeiro RPG made in Brazil do que por suas qualidades como jogo propriamente ditas. Hoje o Tagmar foi repaginado e melhorado, e saiu com o nome de Tagmar 2.

Depois, a Devir ainda publicou Vampiro: a Máscara (correspondente à  segunda edição americana, capa dura) , um RPG de horror que veio na hora certa: graças aos textos da escritora americana Anne Rice, vampiros estavam em moda novamente (como agora), o clima gótico era um grande atrativo para os adolescentes rebeldes da época e suas qualidades narrativas criaram um nicho de jogadores que se achavam melhor porque o jogo deles “não era só porrada, era uma obra de arte”. Coitadinhos….

Mesmo assim, o sistema Storyteller e a ambientação de Vampiro e de outros jogos do Mundo das Trevas viraram uma “febre” no país. Durante alguns anos, foi o sistema mais jogado, e foi o sistema que mais teve livros lançados no país, se considerarmos suas mais variadas linhas. Pena que o jogo foi descontinuado pela editora americana em 2003. Mesmo assim, a maioria dos livros nunca saiu no Brasil.

Outra coisa que ajudou a popularizar os jogos de RPG foram a série de livros Aventuras Fantásticas. Criada por dois ingleses, Ian Livingstone e Steve Jackson (não confundir aqui o Steve Jackson do Gurps e do Munchkin com o SJ inglês), esses livros de aventura-solo foram porta de entrada para muitos no RPG (esse que vos fala incluso). Apesar de não ser RPG per si, esses livros tinham os elementos mecânicos básicos dos RPGs da época: uma ficha de personagem, resolução de conflitos através de dados e a possibilidade de escolher entre várias opções e com isso alterar o rumo da história. A editora Jambô vem relançando alguns desses livros e realmente são bem legais, podem procurar.

O começo dos anos 90 viu um certo “boom” do RPG, e várias editoras grandes tentaram se aproveitar disso: a Grow lançou a caixa básica do D&D (primeira edição), a Ediouro publicou Shadowrun (correspondente à segunda edição americana) e a Abril trouxe o tão famoso AD&D. Além disso, investiram pesado trazendo romances, jogos de cartas e revistas especializadas de RPG, como a Dragon Magazine.

Essas editoras logo abandonaram suas linhas, já que o retorno do RPG era muito pequeno. Assim, a Devir acabou comprando também o direito desses jogos, e criou com isso um monopólio dos principais jogos das editoras americanas no país.

Assim, a Devir seguiu, durante anos, à frente do RPG no país. Os títulos internacionais possuiam muito mais peso e força entre os jogadores. O problema era que, como o número de jogadores era pequeno, e caindo cada vez mais, e sendo uma editora minúscula, eles não conseguiam publicar muito material, especialmente porque detinham os direitos de inúmeros jogos. Com o tempo, as tiragens foram ficando cada vez menores e o preço dos livros aumentou. Com isso, a faixa etária média das pessoas que consegue pagar por um livro aumentou.

Por isso, várias linhas foram praticamente abandondadas, uma vasta quantidade de material foi anunciada e nunca viu a luz do dia e o público, cada vez mais insatisfeito, não se cansava de fazer piadinhas como “há de vir”. Uma situação que perdura até hoje, com atrasos, cancelamentos e pouca comunicação com o público.

Um outro grupo de jogadores e fãs foi responsável por criar a revista Dragão Brasil, em 1994. Durante anos, foi a única revista especializada no tema, quando outras haviam surgido e desaparecido, algumas vezes após uma unica edição. A DB foi uma das grandes responsáveis pela divulgação do RPG no país. Os editores da revista criaram um sistema chamado Defensores de Tóquio, um jogo de humor parodiando os seriados japoneses, que foi lançado como uma revista. A terceira edição desse jogo, o 3D&T (parodiando o nome do D&D), perdeu as características de humor e se transformou em um jogo sério, voltado principalmente para ação e visando atingir os fãs de jogos de video-game e desenhos animados japoneses bem exagerados.

A temática, atraente a jogadores ainda mais novos, e o fato de que o material era distribuido em bancas de jornal por todo o país fez do jogo um dos mais populares, apesar das óbvias incongruências do sistema. Entretanto, sua acessibilidade, levou o RPG para o interior do país. No final dos anos 90, a DB lançou ainda sua ambientação mais famosa, o mundo de Tormenta, que caiu no gosto do público, principalmente dos jogadores de 3D&T.

Mesmo com o fim da revista (e com os editores tendo lançado uma outra revista, a Dragonslayer, que não tem a mesma força), o cenário de Tormenta continua rendendo frutos, inclusive alguns romances e um novo livro com novas regras lançado recentemente.

Outra editora que se aproveitou da divulgação em bancas de jornais foi a Daemon. O jogo Arkanum, que mistura elementos de vários outros jogos gringos que nunca foram lançados aqui, e vários dos suplementos da editora foram bem recebidos pelos RPGistas daqui, por serem baratos e boas alternativas aos jogos difíceis de serem encontrados.

Com o lançamento da terceira edição do D&D e a sua licença aberta (o sistema d20), várias editoras começaram a publicar cenários diferentes, que tomaram conta do mercado americano no começo dos anos 2000. Esses cenários e sistemas permitiram o crescimento da editora Jambô, que lançou jogos como Reinos de Ferros e Mutantes e Malfeitores. Hoje a Jambô se estabeleceu como uma alternativa à Devir. Apesar de lançar jogos de menor expressão, seus preços mais convidativos, seu diálogo com o público e bom tratamento dos livros geram bons frutos. A Jambô também lança hoje os livros de Tormenta, um cenário de muitos fãs, como dito acima.

O RPG no país sempre foi um jogo restrito. Durante alguns anos era muito comum entre os jovens ter ouvido falar e ter experimentado uma ou outra sessão de jogo. Poucos realmente eram os RPGistas, que compravam livros e jogavam periodicamente. Os principais motivos para isso eram a dificuldade de encontrar livros, a falta de compreensão dos idiomas estrangeiros, a natureza exótica do jogo, que não é atraente para todos e, principalmente, creio eu, uma primeira experiência ruim, que afasta muitos jogadores ainda hoje.

O futuro do RPG do país não é nada promissor. A Devir continua lançando livros a um ritmo lento. Os jogadores vetereanos mais espertos já sacaram que vale mais a pena comprar livros importados, que são mais baratos, de qualidade superior e assim conseguem comprar todos os livros dos seus jogos favoritos. Quem fala inglês, mesmo com dificuldade, e possui grana pra investir, prefere essa opção.

O fim de alguns jogos mais populares, como os do Antigo Mundo das Trevas também é um problema. O novo Mundo das Trevas não se firmou no país. O Gurps ficou esquecido durante 5 anos, somente agora foi anunciada a 4ª edição (e mesmo assim, o livro atrasou, o que já gerou comentários).

E até os eventos de RPG, que já foram grandes celebrações e atraiam multidões, hoje reúnem apenas algumas poucas milhares de pessoas. O maior evento do país, o Encontro Internacional, faleceu depois de 16 (!!!) anos, e foi substituido, discretamente, pela RPG Con. Com a diferença que muitos jogadores nem ficaram sabendo disso.

Hoje, o RPG é um jogo que praticamente não cria jogadores novos. Os mais novos preferem os jogos eletrônicos. Talvez, no futuro, o RPG passe por um novo “boom”, mas as perspectivas de isso acontecer não são boas. Alguns vão falar dos “tempos antigos, em que tudo era melhor”, mas é tudo ilusão. RPG sempre foi um jogo para públicos pequenos, e não ajuda em nada que é um jogo de grupo, um único livro pode ser usado pelo grupo inteiro. Além de hoje, a pirataria e o scan dos livros rolar solta, o que complica mais ainda a situação para as editoras.

Alguns sistemas e jogos que, apesar de não terem sido citados no artigo, merecem uma menção:

Desafio dos Bandeirantes: primeiro RPG nacional com uma ambientação nacional. Passado no início da colonização, o jogo lidava com escravos, bandeirantes e desbravadores no Brasil colonial.

Millenia: primeiro RPG de ficção científica

Ópera: RPG genérico nacional. Foi distribuido primeiramente de forma gratuita pela internet, depois foi transormado em um livrinho.

Lobisomem: o Apocalipse, Mago: a Ascensão: livros do Mundo das Trevas antigo, que, junto com Vampiro, compunham a trinidade sagrada.

Paranóia, Toon: jogos de humor, bastante debochados.

Apesar de tudo, há muitas pessoas que fizeram (e ainda fazem) sua parte pela divulgação do RPG, simplesmente porque gostam do hobbie, e porque, em vários momentos, foram “escarniados”. RPG já foi chamado de jogo do demônio, seus jogadores de loucos e descolados da realidade, bruxos, assassinos e ritualistas. Zelar pela fama do jogo é um mecanismo de auto-defesa e uma forma de mostrar para a sociedade que tudo não passa de uma diversão sadia e uma ferramente que pode muito bem ser usada para o aprendizado e o desenvolvimento das habilidades sociais e mentais.

Longa vida ao RPG!

About Igor "Bone" Toscano

Já foi MIB da SJGames, playtester, tradutor, revisor, organizador de eventos locais. Só falta mesmo publicar um jogo.
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6 Responses to Uma breve história do RPG – Parte 2

  1. Mr.Pop says:

    Ótimo Artigo Igor, Parabéns!

    No entanto encontrei alguns piolhos na história. Espero que não se chateie:

    “Lá fora, vários títulos de peso foram lançados, jogos que logo se tornariam cults, sempre com o AD&D como referência. AD&D, vale lembrar, corresponde à segunda edição do Dungeons and Dragons. O “A” vem de “Advanced”, mas essa nomenclatura foi abandonada no meio dos anos 90, quando, no meio da crise, os donos viram que o termo “avançado” fazia o jogo parecer complicado e desencorajava novos jogadores.”

    O “Advanced” lançado aqui não é a segunda edição do D&D. Ele é a segunda edição do AD&D. Desde o final dos anos 70 e início dos anos 80. AD&D e D&D já eram tratados como jogos diferentes. com suplementos diferentes, settings diferentes e tratamento gráfico diferente. A nomenclatura “Advanced” foi abandonada não no meio dos anos 90, mas já nos anos 2000 com o advento da terceira edição.

    Abraços

    • Igor Bone says:

      Obrigado.

      O AD&D corresponde sim à segunda edição do D&D. Não existe um “D&D 2nd edition” pq ele corresponde ao AD&D. Tanto que ele é seguido pelo D&D 3. Cada um desses jogos tiveram várias edições (a edição 3.5 pode ser considerado a segunda edição do D&D 3, por exemplo, e o D&D original teve 3 edições). No Brasil, saiu a segunda edição do AD&D, o texto pode ter ficado confuso, mas não há erro.

      E, salvo engano, já em 98 ou 99 a Wizards reformulou o nome AD&D e a linha voltou a se chamar apenas D&D. Mas eu me enganei no texto, achei que o D&D 3 tivesse sido lançado em 99, não em 2000. Valeu pelo toque.

  2. Lisandro Gaertner says:

    Igor, permita-me discordar.

    O D&D e o AD&D eram linhas diferentes. O AD&D 1st edition foi lançado no final dos anos 70 e o AD&D 2nd edition foi lançado no final dos 80.

    O D&D em si passou por mudanças pequenas e grandes entre suas versões que nunca foram chamadas de edições. A primeira era a de 74. No começo dos 80 foi relançada em duas caixas (uma basic e uma expert). Em meados dos anos 80, o D&D teve uma nova versão que era formada por 5 caixas (basic, expert, companion, master e immortal). No final dos 80 foi lançada a Rules Cyclopedia que condensada todas as regras que estavam distribuidas em todas essas caixas.

    A 3rd edition é um avanço sobre o AD&D 2nd e se aproveitou também de diversas regras opcionais lançadas em livros tipo High Level Campaigns, Combat & Tatics, Skill and Powers e etc.

    • Igor Bone says:

      Lisandro, não muda o fato de que depois do AD&D saiu a TERCEIRA edição. Se o AD&D não é a segunda edição, quem é?

      • Lisandro Gaertner says:

        Por que o AD&D é primeira, segunda e, se você quiser ser purista, terceira edição. Por quê? Por que o AD&D é uma linha diferente de jogos do D&D, ou se preferir, o OD&D (Old D&D).

        OD&D (raça é classe)
        D&D (caixa branca)> D&D (basic and Expert) > D&D (caixas vermelha, azul, verde, preta e dourada) > D&D (caixa preta + Rules Cyclopedia)

        AD&D (personagem e classe escolhidos separadamente)
        AD&D 1st edition> AD&D 2nd edition > AD&D 2. 5 (com skills and powers, combat and tatics, etc) > D&D 3rd

        A terceira edição é uma evolução do AD&D. Como a linha do D&D foi descontinuada, eles tiraram o Advanced do nome e meteram um 3rd edition no fim por que seria a 3a. edição do AD&D. Fraga?

  3. Tek says:

    Só um toque Igor, Reinos de Ferro e Mutantes e Malfeitores até podem ser jogos de menor expressão aqui no Brasil, mas lá no exterior eles são bem conhecidos, especialmente M&M devido ao ótimo trabalho da Green Ronin.

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