Uma breve história dos quadrinhos

Muita gente já fez, até de forma melhor e mais completa. Mas eu acho importante, até pra situar os leitores, sobre a situação das HQs hoje, contextualizando como chegamos aonde chegamos. Espero que curtam.

A origem das histórias em quadrinhos é bem antiga e até difícil de precisar. A humanidade usa desenhos e símbolos gráficos com fins narrativos desde seus primórdios, deixando para seus descendentes o registo de caçadas e outros tipos de informação. Ou seja, a origem das histórias em quadrinhos está diretamente relacionado com a CULTURA, no seu sentido mais básico, de informação transmitida de pai para filho.

Saltemos alguns milhares de anos para os Estados Unidos e o início do século XX. Apesar de histórias seriadas na forma de quadrinhos (especialmente tiras ou cartoons) já serem publicadas há bem mais tempo do que isso, e em outros lugares, foi em 1938 que começou a era moderna da HQs.  Pois foi quando o Super-Homem deu seus primeiros saltos nas páginas da Action Comics que surgiu um verdadeiro mercado e o mundo conheceu um “boom”  na produção e distribuição.

Isso foi tanto uma coisa boa quanto uma coisa ruim: primeiro, porque levou à criação de diversos personagens, levou várias crianças a criarem gosto pela leitura, e lhes permitia sonhar e viver vidas de aventuras e ação, em poucas páginas e a um preço ridículo. Mas como tudo que é demais, logo as histórias se tornaram repetitivas, sem muito cuidado por parte dos artistas e dos editores, interessados apenas em vender. E receosos de explorar novas possibilidades, de conteúdo e de forma.

O fenômeno é mais ou menos o mesmo em todo o mundo: historinhas engraçadas começam a ser publicadas em volumes maiores, com histórias mais longas, mas geralmente, não mais complexas. O público alvo é, principalmente, infantil. Quando chega a segunda guerra, o mercado europeu de “banda desenhada” sofre aquele baque, e o mercado americano, com seus super-heróis, ganha espaço para crescer.

Mas o pós-guerra vai revolucionar as HQs em todo o mundo, de maneiras diversas: no Japão, Tesuka cria o mangá moderno, na Itália, Bonelli, Hugo Pratt e Guido Crepax já começam a explorar novos temas e fronteiras. Os quadrinhos começam a perder aquele tom inocente e infantil e começam a qualidade volta a aumentar. Essa “Era de Prata” marca os quadrinhos como uma época de grandes mudanças, mesmo em meio aos super heróis com o crescimento da Marvel Comics. Seus personagens, muito mais humanos, com seus dramas pessoais, agradam ao público mais do que os primeiros super-seres, muito distantes do jovem comum. Esse período também vê o nascimento das “Graphic Novels”, que nada mais é um nome chique para as revistas em quadrinhos. Os autores, buscando distanciar o seu trabalho daqueles com temas infanto-juvenis optam por usar o termo para mostrar que seu trabalho é sério e adulto. E aqui o nome de Will Eisner, como mestre dos quadrinhos, se firma como o grande divulgador desse tipo de história.

Mesmo assim, continua uma ótima época para os pequerruchos: a Disney tem Carl Barks escrevendo algumas das melhores histórias com seus personagens patos, toda uma mitologia é criada com base nas aventuras do Tio Patinhas, Donald, seus sobrinhos. Algumas dessas cenas serão imortalizadas em outras mídias no futuro, como os desenhos de Duck Tales ou a famosa cena da pedra de Indiana Jones, que se originou nas páginas ilustradas por Barks.

Os anos 70 e 80 se marcam pelo surgimento dos quadrinhos independentes. Cada vez mais os autores buscam se distanciar dos quadrinhos de super heróis infanto-juvenis (que, apesar de tudo, ainda são o principal produto do mercado americano, e vão ser, até hoje, a maior influências nas novas gerações de leitores de quadrinhos em todo o mundo) e explorar temas sérios, ou mesmo autobiográficos. Sexo e sexualidade se tornam mais comuns nesse tipo de obra, muitas vezes misturados com humor. Há a ruptura definitiva entre quadrinhos para crianças e adultos: surge o selo Vertigo: Sandman, Monstro do Pântano, Hellblazer. A popularidade dos escritores britânicos os leva a trabalhar nas editoras americanas, com histórias diferentes às que o mercado americano estava acostumado e com uma boa repercussão. Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, todos já escreveram seus nomes nas histórias das HQs.

Mas tudo muda nos anos 90: com as novas mídias, especialmente a internet e os vídeo-games, o público começa a perder interesse na leitura. O mercado ocidental finalmente descobre os mangás japoneses, o que só agrava a crise. Não ajuda o fato de que as histórias se tornam repetitivas e mal feitas, com uma safra de autores mais preocupados com a IMAGEM do que com a narrativa.

E, finalmente, os anos 2000: a era digital. O mercado muda completamente com a internet. Com ela, é possível ter acesso a material lançado na hora. Vários autores se dedicam a fazer quadrinhos diretamente na internet. Sabe aquele autor tailandês que só você conhece? Pois é, dá pra acessar o que ele fez meia horas depois de ele colocar na rede. As editoras se tornaram meras inconveniências entre os autores e leitor. Cada vez mais o mercado independente se firma como uma alternativa de qualidade. Hoje, é possível publicar a si mesmo, é possível alcançar novos públicos pela wwweb.

Falei pouco sobre o Brasil (sobre a América Latina, na verdade), mas foi de propósito. O mercado de HQs no país, tradicionalmente, seguiu o molde do mercado americano. Durante décadas, foram as revistas de super-herói as únicas a chegarem aqui, o que levou a uma estagnação do mercado em certo ponto. Muitos leitores, especialmente os mais velhos, são fãs única e exclusivamente desse tipo de material, e são incapazes de fazer uma análise crítica dos comics americanos. Por causa disso, demorou muito para que outros gêneros se estabelecessem. A grande mudança veio com a chegada dos mangás, já que o material japonês foi um sucesso absoluto entre os jovens e criou toda uma nova geração de leitores.

O mercado nacional, tradicionalmente, também tem essa cultura de que “quadrinhos é coisa para crianças”. Parte disso se deve ao fato de que o único material nacional que fez sucesso com o grande público foi a Turma da Mônica. Outra, pelo fato de que as histórias de super-heróis também são vista como infantis desde sempre. Mas cada vez mais há mudança de postura, com quadrinistas independentes publicando independente, com editoras apostando em material de outros países, e principalmente com a mudança do próprio leitor, que cansou da mesmice e resolve apostar em leitura diferente, que vem muito bem recomendada e premiada.

Com a integração, ganha o leitor: o acesso é mais fácil e mesmo os autores conseguem trocar experiências de maneira mais eficiente. As HQs, como mídia, ainda possuem um grande potencial não explorado e muitos preconceitos a serem vencidos.

About Igor "Bone" Toscano

Já foi MIB da SJGames, playtester, tradutor, revisor, organizador de eventos locais. Só falta mesmo publicar um jogo.
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2 Responses to Uma breve história dos quadrinhos

  1. J. Junior says:

    Segunda vez que ouço essa de que desenhos rupestres foram os primeiros quadrinhos, e faz sentido. Apesar de que não tinham quadrinhos. Mas pensando bem, será que é mesmo necessário quadrinhos pra ser HQ?

    Acho que o importante é a sequência de imagens, nesse caso desenhos rupestres contam, e HQ’s são mais antigas que letras e uma das primeiras artes da humanidade.

    Bacana.

  2. Pingback: Uma breve história do RPG – Parte 1 | MIB 1602 – Fnord!

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